A inteligência artificial tem dominado a conversa nos últimos anos, quase sempre entre o deslumbramento e o receio. Escreve textos, cria imagens e responde a perguntas em segundos. Mas quando saímos do ecrã e olhamos para os problemas que realmente afetam a vida das pessoas, a pergunta muda de tom, para que serve, afinal, tanta tecnologia? Para fazer imagens e vídeos cómicos?
A habitação é talvez o melhor teste, se houver vontade política. Rendas incomportáveis, jovens que adiam a saída de casa dos pais, famílias empurradas para longe dos centros e um interior com casas vazias e falta de gente. A isto juntam-se restrições à construção que acabam por alimentar a construção ilegal. É uma crise com muitas causas e nenhuma solução simples.
Nenhum algoritmo vai, sozinho, construir casas ou baixar preços. Mas a IA pode ajudar a mapear o património devoluto, acelerar licenciamentos que se arrastam durante meses e cruzar quem precisa de casa com quem a tem e não a usa. Pode também dar a cooperativas, associações e pequenos municípios uma capacidade de planeamento que até aqui estava ao alcance apenas de quem tinha grandes meios.
A questão não é se a inteligência artificial pode resolver a crise da habitação. Não pode. A questão é se estamos dispostos a usá-la para isso, ou se vamos continuar a tratá-la como uma brincadeira sofisticada enquanto o problema cresce à nossa porta.
Muitas vezes, as soluções são mais simples do que parecem. Passamos o tempo a discutir os problemas, a falar deles, a queixar-nos deles, mas raramente nos concentramos em resolvê-los. É aí que devíamos investir o nosso tempo, e é aí que está a lição para os nossos líderes, seja qual for o partido, pôr de lado as questões político-partidárias e focar-se na resolução dos problemas. É o que fazem os empreendedores de sucesso. Resolvem problemas, constroem soluções e criam valor para a sociedade.
A crise da habitação faz-me lembrar uma rotura de água que vivi recentemente. No início é pequena e quase ninguém liga. Depois vai crescendo e começa-se a falar do assunto. Quando aumenta, discute-se com várias entidades e juntam-se mais pessoas à conversa. Semanas depois, alguém pergunta: “Mas já alguém ligou para o piquete das águas?” Ninguém tinha ligado. Bastou uma chamada para o problema ficar resolvido.
Às vezes, a solução é muito mais simples do que pensamos. Só falta alguém dar o passo.
Na habitação, o diagnóstico é conhecido, faltam casas no mercado, públicas ou privadas. Há muitas formas de lá chegar, mas algumas são mais simples do que parecem. Uma delas é o licenciamento. Hoje, um projeto pode passar anos à espera de pareceres, de verificações e de respostas que dependem de técnicos sobrecarregados e de processos ainda presos ao papel. Cada mês de espera é uma casa que não chega ao mercado e um custo que acaba refletido no preço final.
É aqui que a inteligência artificial pode fazer a diferença. Pode verificar automaticamente se um projeto cumpre o PDM e o regulamento municipal, assinalar falhas na documentação antes de o processo dar entrada e dar resposta imediata às dúvidas mais frequentes de quem quer construir ou reabilitar. Os técnicos municipais deixam de gastar tempo em tarefas repetitivas e passam a concentrar-se nos casos que exigem realmente o seu olhar. Não se trata de substituir pessoas nem de baixar o rigor, mas de tirar do caminho o que só atrasa.
Não é preciso inventar nada de raiz. A tecnologia existe e muitos municípios já têm a informação digitalizada. Falta, como no caso da rotura, alguém pegar no telefone.
Pode a inteligência artificial ajudar a resolver a crise da habitação? Pode, mas não sozinha. A IA não substitui a vontade política, o investimento nem a coragem de mudar regras que já não servem ninguém. O que pode fazer é tirar desculpas do caminho: processos lentos, falta de informação, falta de meios. Quando a tecnologia torna mais fácil fazer, fica mais difícil justificar não fazer.
O futuro da inteligência artificial não se vai medir pelos vídeos que gera nem pelas imagens que nos fazem rir, mas pelos problemas reais que nos ajuda a resolver. E poucos problemas são tão reais como não ter onde viver. A ferramenta está à mesa. Resta saber quem a vai usar primeiro.